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Buscar o amor na sua fonte...com Santa Catarina de Sena



Muitos santos, além de modelos de vida e santidade, deixaram para nós muitos ensinamentos na forma de cartas e outros documentos escritos.

Uma das produções mais significativas deste tipo são as cartas de Santa Catarina de Sena. A religiosa dominicana que viveu no século XIV, com sua virtude espiritual, trocava correspondências com seus irmãos de fé, com políticos da época e até com os Papas de seu tempo. Seus aconselhamentos eram de várias ordens, de acordo com a necessidade dos interlocutores: conselhos, direções espirituais, intervenções políticas, críticas... 

Uma de suas mais belas cartas foi escrita a Beatriz Scalla, esposa de um poderoso governante de Milão, e tem por tema principal a busca do amor na fonte verdadeira, que é Deus. Publicamos, a seguir, a carta na íntegra.

Carta nº 29 à mulher de Bernabó Visconti

Vós me perguntareis: "Se eu não possuir o amor e, sem ele nada puder fazer, de que maneira o encontro?". Respondo-vos dizendo que adquire-se o amor, amando! Quem deseja ser amado deve antes amar, deve querer amar. Munida de tal vontade, a pessoa aplicará seu pensamento para achar o lugar onde está o amor e qual a maneira de encontrá-lo. Como fazer isso? Reconhecendo o próprio nada. Consciente de que por si mesma nada é, a pessoa reconhece ter recebido de Deus a existência e todos os demais favores, isto é, a graça e os bens espirituais e materiais. Sem o existir, nenhum favor poderíamos receber. Tudo o que a pessoa possui e descobre em si é dom da inestimável bondade do Criador. Ao compreender isso, a alma se ergue e vê crescer em si o amor, mas não por si mesma ou pelo prazeres do mundo, que despreza. Eu o compreendo bem. É condição do amor que, sentindo-se amada, a criatura humana imediatamente ame. Ama, preferindo morrer a ofender o objeto amado. O sentimento de ser amada nutre na alma a chama do amor. O homem compreende que ficou sendo aquele campo e rochedo onde foi fincado o estandarte da cruz. Vós sabeis que não foi a terra nem a rocha que mantiveram em pé a cruz; e que não foram os cravos e a cruz que retiveram o Verbo, Filho de Deus, mas o amor. Foi o amor que Deus tem por nós que constituiu o rochedo e os pregos que retiveram Cristo no madeiro.

Tal é a maneira de encontrar o amor! Sabemos agora onde ele está. Mas como devemos amá-lo, Reverenda e querida mãe! Jesus Cristo é a norma e o caminho. Não existe outra estrada. E o caminho que Ele nos ensinou, a estrada que devemos trilhar para caminhar na luz e receber a vida da graça está na aceitação dos sofrimentos, humilhações, caçoadas, maus tratos, ofensas e perseguições. Com tais coisas, assemelhamo-nos a Cristo crucificado. O Cordeiro imolado desprezou as riquezas e os poderes deste mundo. Sendo Deus e Homem, sendo a norma e o caminho, não desprezou a lei, mas observou-a. Jesus foi humilde e manso. Jamais se ouviu um grito seu de revolta. Cristo abriu-se em plenitude ao amor. Apaixonado pela nossa salvação, não pensou em si, mas na glória do Pai e no bem dos homens. Não recusa a dor; até a procura. Como é impressionante ver o  bom Jesus. que governa e sustenta o mundo inteiro, vivendo ele mesmo em grande pobreza e necessidades. E nisto ninguém jamais o igualou. Tão pobre que, ao nascer Maria, não possuía uma toalha para envolvê-lo. E ao morrer estava nu (na cruz), a fim de vestir a humanidade e cobrir-lhe a nudez (espiritual). Pois o pecado desnudara o homem, despojando-o da veste da graça. Cristo desfaz-se da vida e e a coloca sobre nós.

Quem descobre o amor na direção de Cristo envergonha-se de querer segui-lo por outra estrada que não seja a da cruz. Já não procurará prazeres, posições sociais, ostentação. Preferirá levar uma vida de peregrino e viajante, até que ela chegue ao seu termo. Qual bom caminhante, por nenhuma prosperidade ou dificuldade retardará sua marcha, mas prosseguirá virilmente com o amor e o afeto direcionados para o termo da caminhada, que espera alcançar. Oh minha mãe e boníssima irmã no doce Cristo Jesus! Quero que caminheis assim. Quero que não olheis para riquezas e satisfações. Nem para dificuldades e tribulações que possam surgir. Não vos retenha o prazer, não vos retenha a dor. Mas correi por tal estrada com coração viril, alegrando-vos em praticar a virtude e em tolerar os sofrimentos como Cristo nos ensinou. Usai as coisas do mundo conforme as necessidades da natureza, não por desordenado apego. Desagradaria a Deus se amásseis realidades inferiores a vós; seria perda de dignidade pessoal. A alma se nivela às coisas que ama. Se amo o pecado, que é negação, reduzo-me ao nada. A maior vileza ninguém poderia descer. O pecado consiste no amar aquilo que Deus odeia, e no odiar aquilo que Deus ama. Erra quem ama as realidades transitórias do mundo e a si mesmo com amor desregrado, pois Deus detesta tal coisa e dela fez justiça, descontando, sobre o corpo de Cristo. Jesus foi a bigorna em que o Pai consertou nossas maldades. Como é grande a maldade e a miséria humana. Bem sabe o homem que Deus o criou à sua imagem e semelhança; que foi recolocado em graça, a qual perdera pelo pecado; que no sangue de Cristo recuperou a imagem da Divindade. Apesar disso, com muita cegueira despreza a dileção e o amor com que Deus o engrandecera e põe-se a amar coisas contrárias a Deus; coloca se amor bem distante do Senhor; ama as criaturas, ama a si mesmo deixando Deus de lado. Sem dúvida nenhuma, as posições sociais, os prazeres e todas as realidades humanas não são condenáveis em si mesmas. Mas é condenável o amor que o homem lhes dedica desprezando o mandamento de Deus.

Mas quando o amor e a afeição se superam e se fixam em Cristo crucificado, o homem atinge a maior dignidade, pois torna-se uma só coisa com o Criador. De fato, pode haver algo mais sublime do que estar unido a Deus, plenitude do bem? E ninguém pode atribuir a si mesmo a realização dessa união, mas somente ao amor. Compara-se a uma escrava que se torna esposa de um rei, vindo a ser alguém importante, por unida a ele, é rainha. Tal mudança acontece não por suas forças, escrava que era, mas pela dignidade do Imperador. Mãe caríssima no doce Cristo Jesus! Pensai que por semelhante maneira a alma enamorada de Deus, de escrava e serva redimida pelo sangue do Filho de Deus, é elevada a uma dignidade sublime; já não mais é chamada escrava, mas de rainha e esposa do eterno Rei. Em plena concordância com a palavra de Jesus: "Servir a Deus é reinar". Deus retira do homem sua servidão e o torna livre.

Essa união perfeita com Deus é mais sublime que a dignidade da criação, pois o amor e as virtudes a aperfeiçoam. A pessoa é despojada do velho homem e revestida do homem novo em Jesus Cristo. A sua alma torna-se apta a acolher a graça, pela qual saboreia Deus nesta vida, para gozar no fim da visão eterna. Então entrará na paz, no perfeito repouso e na quietude, e seus anseios serão todos satisfeitos. Durante esta vida não alcançamos a paz. O motivo é o seguinte: porque neste mundo não chegamos à união com a essência divina. Durante a caminhada e peregrinação desta vida, apenas temos o  desejo de seguir o reto caminho e a sede de atingir o termo, o fim. E tal desejo nos leva a trilhar a estrada de Jesus, como ficou dito antes. Quem não amar o seu fim, que é Deus, jamais conhecerá o caminho.

Quero, então, que aumente o vosso desejo de seguir por tal estrada, que vos conduzirá ao fim. Crede! Não é um caminho escuro, tenebroso, cheio de espinhos. Pelo contrário, ilumina-o a verdadeira luz, o sangue de Cristo, luz verdadeira. Por ele vai a alma, sem encontrar espinheiros. É uma estrada perfumada, florida, com muitos frutos. E quem segue tal suava estrada caminha feliz. Prefere morrer a abandoná-la. Por certo o caminhante verá espinhos, que são as numerosas tribulações, os enganos do demônio e a soberba do mundo, mas não se ocupa com isso. Faz como o jardineiro, que colhe a rosa perfumada e deixa o espinhos. Assim a alma colhe a flor perfumada da perfeita paciência e deixa para trás as tribulações e angústias do mundo, enquanto fixa o olhar no Cordeiro, que caminha à frente de todos.

Correi, pois, minha mãe, corramos todos nós fiéis cristãos ao perfume deste sangue, inflamados e consumidos pela divina caridade. Seremos uma só coisa com Deus. Comportemo-nos como o bêbado, que não pensa em si mesmo, mas apenas no vinho que já bebeu e lhe resta beber. Inebriai-vos no sangue de Cristo crucificado. Tendo-o diante de vós, não morrais de sede. Nem bebais pouco, mas inebriai-vos até perder os sentidos. Não vos ameis por vós mesma, mas por causa de Deus. Nem ameis a Deus por vossa causa, para vossa utilidade. Amai a Deus por causa de Deus, por ser Ele a bondade infinita, digno de ser amado. Será um amor perfeito, não um amor interesseiro. Pensai somente em Cristo crucificado, pensai no vinho do perfeito amor que bebestes e vos foi dado e revelado já antes da criação do mundo, antes que existísseis. Se Deus não vos amasse, não vos teria criado. Em seu pensamento Ele vos amou e vos deu a vida. Disto nascerão vossos pensamentos sobre o amor-caridade. Exatamente! Pensareis na bebida do amor, esperando e desejando possuir e saborear a suprema e eterna beleza de Deus.

Vimos, assim, onde está a fonte do amor, onde procurá-lo e uma vez encontrado, como convém bebê-lo. Peço-vos, por amor de Cristo crucificado, que não sejais negligente. Esforçai-vos por chegar a tal fonte, pela estrada indicada acima. Se o fizerdes, realizareis o desejo e a vontade divina a vosso respeito, pois Deus apenas quer a vossa santificação (1Ts4,3). (...)

Ele é o Deus bondoso. Não precisa de vós. Mas nos amou antes que existíssemos. Sem nosso merecimento, pela graça, deu si mesmo a nós.  

Fonte: As Cartas - Santa Catarina de Sena, Ed. Paulus, 2016



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